|
.

Mensagem do Presidente de Câmara
Paredes de Coura: 5000 anos de cultura
num Território com Alma
Os courenses são geralmente hospitaleiros e tolerantes. Gostam de bem receber e prezam que a imagem transmitida da comunidade e da terra cause uma impressão favorável ao visitante.
A auto estima é elevada, respeitam as diferenças, mas exigem ser respeitados.
A influência dos meios de comunicação modernos, sobretudo da televisão, veio para o bem e para o mal esbater a especificidade cultural, impondo concepções de qualidade de vida urbanas.
No entanto, no essencial, ainda resistem valores fortemente arreigados na secular cultura de matriz rural: o respeito pelos símbolos e rituais da religiosidade popular, mesmo quando a prática religiosa diminui; a solidariedade comunitária e o espírito de família; o sentido da entre ajuda e do mútuo apoio perante as necessidades; o culto da honradez e o respeito pela palavra dada; a partilha social e o empenhamento colectivo.
O courense aceita a expressão da opinião alheia, aproveita os contributos que lhe sejam oferecidos e pode manifestar gratidão. Mas não aceita, sem protesto, imposições que ofendam o seu modo de ser, na essência ou na forma.
Tolera a crítica ponderada e fundamentada. Sabe rir-se de si próprio e ser exigente consigo e com a sua comunidade.
Esta exigência formou a sua personalidade, a forma de vida, com uma especificidade tal que levou à adopção, como identificadora deste concelho, da frase 5000 anos de cultura, num território com alma. É isso que o convidamos a visitar, usufruindo de um território que mais do que a monumentalidade ou a modernidade, em que também vimos apostando, lhe oferece uma espiritualidade ainda forte, veículo para a quebra com a velocidade dos tempos modernos.
Fazemos, por isso, votos de que disponha de tempo suficiente para nos visitar, e que esta publicação seja um companheiro útil para conhecer o nosso concelho.
António Pereira Júnior
Presidente da Câmara Municipal
.

Mensagem do Convidado
Casa da Ramada
A mais funda alma da moradia terá sido, julgo eu, a forja de um ferreiro exímio, tão entendido na manha dos muares como na têmpera dos seus artefactos. É bem possível que daqui derive essa espécie de chama perpétua, responsável pelo apego com que resiste a Casa a soltar do seu abraço os que nela se aposentam. À beira da oficina acabariam por se erguer as quadras de habitação com o alpendre sobre as lojas dos animais, dominando os retalhos de semeadura que se estendiam em redor. E sairiam enfim para o Brasil os filhos, e regressariam, alguns decénios volvidos, relatando aventuras de cobras constritoras e de mulatas em forma de violão, arvorando o sotaque que dissolvera a prosódia celta original.
Da mesa de trabalho avisto o monte chamado do Castro, o qual guarda as ruínas de uma povoação truculenta, porventura entretendo com a de Cossourado um comércio de troca directa, nem sempre pacífico, baseado no mel e no queijo, na olaria e nas peles. Queda-se um pouco mais além a Senhora da Pena, irmã gémea, rebelde aos preceitos mariológicos, da das Dores, de São Martinho, da do Livramento, de Formariz, da do Rosário, de Bico, aguardando a jornada estival da saída do seu andor, enfeitado a notas de banco e a flores de papel. Se assomo à janela da sala, descortino o pequeno santuário de São Silvestre, coroando uma elevação escalavrada, e reconheço o santo-papa como herdeiro da sabedoria de um druida autóctone, orgulhoso daquelas luvas negras, algo sinistras, com que dispensa benesses à procissão dos amortalhados. Ainda não há muito vinham os romeiros, eles próprios guardadores de segredos de excelência, assar o cabrito cerimonial no reputado forno do meu pão.
Abatem-se os nevoeiros, reduz-se ao silêncio o canto do cuco, soltam-se como que submersas as badaladas do relógio tristemente electrónico da capela de Nossa Senhora da Conceição. Houve uma noite escuríssima em que toquei o impossível, a nuvem de centelhas que anuncia a presença das feiticeiras, flutuando diante do portão do quinteiro. E numa tarde de ventania, ao despertar da sesta, chegou-me a lengalenga dos meninos que há muito frequentaram a escola, agora deserta, recitando a infinita tabuada, sete vezes dois catorze, sete vezes três vinte e um, sete vezes quatro vinte e oito, sete vezes cinco trinta e cinco.
Tudo isto, eu juro, exactamente como vos digo.
Mário Cláudio
Escritor
.
.
.

.
|
|